Ela está naquela cama finalmente. Depois de meses indo e vindo do CTI, de parentes distantes que apareciam para sua alegria, apesar da tristeza represada no olhar, de comida ruim e injeções, ela deitava confortável em seu quarto de hospital. A respiração, ofegante, mostrava aos presentes todo o cansaço que a vida lhe causava a esta altura.
As duas senhoras conversavam baixo sobre seu estado de saúde, sobre quem apareceu por lá ultimamente, e pairava no incosciênte daquele quarto a incredulidade de que ela, tão forte e viváz um dia, de cabeça tão boa nos seus já mais de oitenta, ela que criara todos os onze, chorara a morte prematura de alguns e sempre fora o núcleo condensado daquela família, ela já não aguentava mais. É claro que tudo isto ficou evidente muitos anos atrás, quando se agravaram os problemas de coração, mas ninguém queria encarar de frente a realidade viva da morte que se aproximava.
Naquela noite, um menino havia sonhado que via a mãe em pranto profundo, tão copiosamente chorosa, que acordou também cheio daquelas lágrimas (aí, tantas!), e pediu a Deus com fervor que à ajudasse, apesar de não entender o que se passava. Aquele mesmo menino observava agora a ansiã, alheio as atualizações de sua tia. Ele fitava seu rosto murcho pela idade, seus cabelos da mais pura neve, seus olhos fechados em um sono inquieto. Colocou a destra em sua cabeça, como a fazer cafuné, e pediu com toda a sua fé para que fosse instrumento dos desígnios Dele, da Sua vontade. Ficou assim por minutos, e quando sua mãe o chamou, beijou a fronte com todo o amor que quisera ter aprendido a sentir muito antes, sentindo seu hálito de quem a muito não se levantava nem para escovar os dentes. Despediu-se da tia e foi, deixando uma parte sua que não compreendia para trás.
Chegando em casa dormiu profundamente e, ao acordar, recebeu a notícia envolto em brumas. Como que um sonho em que se sabe estar dormindo; mas ele não sabia, ou sabia demais. Esta história, porém, não lhe pertence.
Soluços, abraços, parentes de todos os graus possíveis. Idéias loucas, de quem não está acostumado a encontrar a Ceifadora, de voltar aquela cada velha para fazer gelatina, "do jeitinho que ela fazia", agarrando-se a esperança extinta de tê-la de volta. Uma caixa enorme, cheia de margaridas e lembranças, estava no centro, iluminada por uma fraca luz única, mantendo na penumbra pouca o rosto de seu guardião.
Se chorava eu não sei, pois que o nunca vi fazer antes nem depois. Era duro, forte, porém sempre o grande gozador de todos os fins de semana. Ali, recebendo todos aqueles cumprimentos, não se conformava de forma alguma, pois sempre disse em todos os seus versos simples de festa de família: "quero que Deus me leve antes dela". Eu, claro, não saberia rimar estas palavras em sua poesia, mas elas eram tão sinceras, que revoltavam seu lago costumeiramente límpido e calmo da fé, e abalavam agora sua inabalável saúde.
Sai o cortejo. O bosque, em toda a sua exuberância triste, tenta, em vão, trazer paz aqueles que ficam. Algumas falas muito tocantes. Os filhos, outros parentes, o irmão. Quando o caixão descia para sua morada final, uma última frase reverberou fundo, tocando toda alma capaz de sentimentos que se fez presente: "Tchao, meu amor". E Foi o que de mais doloroso aquelas árvores ouviram até hoje.
A vida tenta voltar ao normal. O trabalho, a escola, começam a tomar a mente daquelas pessoas de novo. O conjuge, que agora se encontrava sozinho na casa de adobe, recebia todos os dias um filho que passava a noite, tentando trazer o pai de volta a tudo. As transfusões de sangue se tornaram mais frequentes. Anemia nesta idade tão avançada! "Os médicos estão falando em leocemia.", dizia-se pelos cantos.
Engraçado o tal deja vú. Se não repito a descrição de todo é ritual, é para não gastar os olhos de quem os leu a tão pouco, somente vinte e um dias atrás. O padre lhes disse, e eles sempre foram pessoas de muita fé: "Até que a morte os separe". E eis que os homens, mesmo os mais religiosos, desobedecem as vezes os desígnios de Deus, e interpretam o amor segundo seu próprio coração.
sábado, 30 de agosto de 2008
depois da vírgula, o recomeço
Faz muito tempo que este anseio ronda meu imaginário, formentando dedos para que busquem trabalho. Resisti. Com toda a sinceridade que me é possível, tive preguiça.
Queria ter um outro jeito de explicar isto, algo que não me lembrasse tudo aquilo que eu fujo em todas as manhãs de feira. Mas não tem. Me rendo, então, a verdade (felizmente não única, mas talvez absoluta) de que tudo é matemática.
Voltando ao meu raciocínio, sinto que as pessoas vivem em movimentos ondulares, então o que à um minuto é alegria no outro é tristeza, o que nos encanta em certo momento faz querer matar depois, e aquilo que parece tedioso e difícil, com o tempo transborda em urgência d'alma. Me encaixo (não só, obviamente) no último caso.
Se já dei flores um dia, quando rapaz, as que hora dou tem assaz melancolia. Está frase brotou agora neste teclado, e por mais que não me pertença, manterei. Agora, o impulso primeiro destas palavras, a "gota d'água", nos dizeres de ontem, foi o questionamento da minha frivolidade. Resolvi, portanto, me explicar, e faço isto com outro conto. Agora, como de hábito na arte da escrita, darei minha própria carne a deleite, como vejo outros tão próximos a fazerem, escancarando suas víceras aos médicos e aos abutres.
Queria ter um outro jeito de explicar isto, algo que não me lembrasse tudo aquilo que eu fujo em todas as manhãs de feira. Mas não tem. Me rendo, então, a verdade (felizmente não única, mas talvez absoluta) de que tudo é matemática.
Voltando ao meu raciocínio, sinto que as pessoas vivem em movimentos ondulares, então o que à um minuto é alegria no outro é tristeza, o que nos encanta em certo momento faz querer matar depois, e aquilo que parece tedioso e difícil, com o tempo transborda em urgência d'alma. Me encaixo (não só, obviamente) no último caso.
Se já dei flores um dia, quando rapaz, as que hora dou tem assaz melancolia. Está frase brotou agora neste teclado, e por mais que não me pertença, manterei. Agora, o impulso primeiro destas palavras, a "gota d'água", nos dizeres de ontem, foi o questionamento da minha frivolidade. Resolvi, portanto, me explicar, e faço isto com outro conto. Agora, como de hábito na arte da escrita, darei minha própria carne a deleite, como vejo outros tão próximos a fazerem, escancarando suas víceras aos médicos e aos abutres.
Assinar:
Postagens (Atom)