segunda-feira, 10 de outubro de 2011

feliz...

Te quis
não nego
eu também queria ser feliz
tu também podia ser raíz
Mas alma de cisca-fogo não é de pousar
nem termina o ninho já querendo voltar
a plainar... no além... de mim.

Se chegar a hora,
por favor não se prenda por mim.
amor, toda fábula/abóbora tem seu fim
Voa logo, não titubeia
Gaiola é pra pássaro triste
se retornar a casa te aflige
é que não gosta mais
vai sim.

Leva contigo algum alpiste
Mira um lugar que não existe
guarda o sorriso e a pluma
até que anteveja, taciturna,
a ave que almeja encontrar
diga coisas bonitas de novo
mas não lhe faça chorar.
Dê-lhe seu canto mais belo
mistura de azul e amarelo
se gostar, fica por lá.

Luz de Lua avermelhada
procuro da minha sacada
vóz que me fez corar.
vê nas coisas escuras
no silêncio incômodo atua
retiro do órgão pulsante
a esperança restante
de, um dia, remorrer de amor;

Como se não bastasse a história vivida
insisto em falar nessa cantiga
do findo
pra me maltratrar
Basta
Bastará
(?)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

dia-a-dia

sabe aquele dia?


Ceci passou correndo pelos arbustos asteráceos que vieram sem pedir licença, que ousaram o laranja petalóide que Ceci espalhou, tamanhã a força de sua pressa. Ia contar pra Eli bobagens de moda que lera numa revista de páginas amarelas não envelhecidas - que nem envelheceriam, tamanho o peso da pressa das roupas novas sobre as antigas novas - as mesmas páginas que lia Carolina na grama esquentada de amarelo pelo sol daquele dia (seria o mesmo sol de cada dia?), ela que tudo ouvia mas de tanto não queria não sabia do calhambeque antes azul - agora com mechas amarelas, tamanho o desrespeito da pressa do tempo - que barulhentava a grama e a casa na frente de suas costas, das pessoas que davam as costas para a casa e se achegavam de suas costas, sem notar-lhe as cores ou sem fazer questão, passando por sua frente e desaparecendo de sua não percepção. Gramínia que era, reparou com surpresa intuição quando pedaços laranjas de um indivíduo despetalado lhe caíram nas páginas amarelas de brilho falso, e fechou devegar as roupas recentemente novas que assistia, com a pressa que lhe dera a impaciência de ver e rever e ser revista com os mesmos olhos e as mesmas listras, de nada lhe esquentar a alma como o sol lhe esquentara as vistas, de confirmar sua não crença no todo, na parte e nos pares, estes últimos com a pressa desesperada do silêncio que sabia seria aquela noite no quarto de dormir quando a lua lhe aparecesse, sozinha (encontraria a Lua, algum dia, alguém pra lhe rodopiar? Vaga rodando pela eternidade temporal, sem lembrar saber fazer mais nada da vida, nunca correspondida pelo centro de seu universo, raramente observada por alguma célula distraída que olha pra fora, admira sua solidão pálida. Ela crê e não sabe parar, segue rodeando o azul com a pressa de quem espera, com a certeza não embasada de um dia - aquele dia? - tudo mudar) - suspirou. O ar entrou e saiu mas não encheu de vida aquele corpo, deu mais uma sobrevida a aquela alma com frio que não se esquentaria naquele dia. Carolina não se podia. Queria fazer de tudo, queria ligar pra Eli, gritar pra Ceci, escrever cartas, postar na mídia, dizer aos pais e aos que se recriavam com ela: - Amo, amo, amo, amo, amo, amo, amo, amo! Mil vezes amo e já não me sinto aflita! - e quando assim pensava respirava um pouco as energias que se lhe eram oferecida. Tinha pressa de se mostrar agradecida, pressa parada de quem não se permite a alegria, de quem espera calmamente que passe a vontade de agir e passe o dia - em branco -, de ignorar o arco-íris que lhe deu na telha e lhe encheu a vista, e sem ligar, sem gritar, sem dizer, publicar ou abraçar, deixou de sorrir nas idéias e se foi pra sombra, esperar a noite, olhar pela janela e se sentir vazia. E ao se horizontalizar em branco com bolinhas (que na escuridão não se via) se perguntava com pressa brutal de ser respondida:



Porque se sentia vazia?

terça-feira, 19 de abril de 2011

resposta ao não-poema de Marcos Assis

Preconceito institucionalizado

não merece nem um post. mas ainda precisa de vários.

(?)

domingo, 17 de abril de 2011

(a)(o)mar

Depois de brisas, chuva fina, temporais, ventanias, granizo na boca do estômago, mormaços e outras instabilidades meteoro-sentimentais chega um dia azul-abril, parece que o tempo vai firmar.
Aí vem a noite, uma lua dita linda compartilhada sem aproximação. E todo o caos lá fora poderia mesmo passar, e todos os dias poderiam ser previstos como bons tempos, mas foi aqui - na terra batida que pisamos dormimos e rolamos - que por descuido e vinho vieram ressecamentos, que viraram rachaduras, que tremeram a terra e causaram o nosso desabamento. Dessoterrado dos destroços, eu procuro reconstruir o alicerce e acreditar nas promessas promissoras, ou num único hoje ensolarado sem partes nubladas. Acabei de entender - acho que vi  n(o reflexo d)a TV -  que o ruir do meu chão pode ter sido em um segundo de desdedicação, mas reverberou longe onde nem da pra ver, e de tempos em tempos, sem aviso prévio ou sirene, vai vir uma onda carente me abraçar, me lamber e levar os pedaços que custei a juntar do que havia pra me segurar.

Certo dia cansarei de insistir na minha cabaninha abafada de lona mal feita - constantemente subitamente desfeita - e repousarei a luz das estrelas, no relento do meu mundo, na certeza de amar essa beleza, selvagem carinho, na felicidade de me deitar em mim

Até lá

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

uma rua chamada Floripes

.
.
.


Floripes bonita e calma
das mais antigas da cidade
cercada de corpos (hoje) frescos
seus primeiros dias
- flor da idade -
(hoje) ninguém sabe, ninguém viu.
ninguém lembra.

Floripes e a sombra das árvores
o almoço simples
o ritmo lento
uma mesa
hoje 
repousando na calçada

Florípes e os carros
hoje
barulhentos
velhos rabugentos
meninos traquinas
um susto (hoje), um surto de incômodos
no meio da madrugada.

Floripes a guardiã da vida
hoje silenciosa.
agitada no horário de todos
por ela hoje passam, ficam ou não
crianças do bê-a-ba
mendigos, famílias, gordas senhoras, médicos e enfermidades
forasteiros
irmãs branquinhas
e os bêbados que riem alto em sua cabeça
tentando na labuta de todos os dias
esquecer hoje
todos os dias

nela muita vida há
hoje vive.
muitas casas, muitos sapatos,
alguns hoje descalços,
todos a conhecem pelo nome
se hoje a chamam,
não responde.
aceita as pisadas e os calos,
agradece a limpeza
a televisão a lhe falar do mundo
hoje.
Ontem foi assim?
não, ontem nunca foi.

Floripes a primeira dama-flor-rua da cidade
tem memórias de todos os tempos
hoje não lembra onde
guardou
acha algumas jogadas
fragmentos de outros
hoje

Floripes hoje esqueceu
o amor que recebeu
ontem
antes de ontem
antes de outrem
antes de seu eterno hoje
mas ela sabe, eu sei que ela sente
o amor que lhe cultivam
sempre