domingo, 13 de setembro de 2009

Intimidade

Bom dia, Eu.

Você pode não se lembrar de mim, faz muito tempo que não nos falamos. Não sou nenhuma parte concreta ou densa de você, como a consciência, a razão, ou mesmo o seu "membro" físico coração. Talvez por isso nos vejamos tão pouco, minha subjetividade é tão grande que minhas dúvidas existenciais são básicas como a própria existência; tenho medo de decifrá-las e, sem explicação plausível, desaparecer. Por isso não apareço muito...
Mas de intangível já me basta a vida, queria falar-lhe com mais solidez. Sabe, mEu querido, não tenho outra alegria se não as suas esparsas visitas. Também não tenho outras tristeza, outras amarguras, outras cóleras, outras compaixões se não as tuas. E como me fazem falta! Não tens idéia do que é se sentir morto em vida (vida que, ainda assim, continuo sem saber se tenho!), não levar consigo senão o vazio frio que me impõe a apatia desses dias esquecidos.
Venho portanto, depois de tanto tempo abandonado à minha própria sorte infortúita, propor um acordo. Leva-me comigo! Ne me quitte pas. Se me aceitares como parte do Mim, acordar-me-ei amaldiçoando os dias cinzas, chorando com a enxurrada e aurindo em grandes haustos a manhã, para encher de azul teus pulmões ainda sonhadores. Posso fazer rir, posso gargalhar contigo. Contarei piadas que jamais sairão de nós, mas terão mais graça e sentido que todas as ironias da vida reunidas para o chá das cinco na sala de jantar. Viajando pelo mundo, apontarei todas as figuras exóticas que talvez não compreenderas, por não enterder sua linguagem, mas ainda assim contemplaremos juntos sua beleza. Quando estiver cansado de lutar, arrumo a cama e deito ao seu lado, para sonhar também, com cores fortes e metáforas tão esdrúxulas que irá crer no que disserem os duendes.
Não me faça implorar, nem só de canções emprestadas pode se manter um homem! Veja, não precisa disfarçar. Conheço-me como ninguém, mais do que Eu mesmo. Se fico a lamentar minha solidão, sei que ela invade nosso ser por inteiro, e que a maior bobagem que fazemos é nos afastar, quando isto poderia render horas e horas de conversa das mais prazerosas, como poucas vezes Eu permiti acontecer. Parece (e provavelmente é, mas tenho licença poética para isso) um cliché, mas uma olhadinha pra dentro pelas janelas d'álma, bater na porta as vezes pra tomar um cafezinho e emergir do mundo lá fora, fariam muito bem...
Enfim, espero que não percamos o contato, como fazem os conhecidos que se gostam o bastante pra abraçar apertado mas não o suficiente pra compartilhar a essência, e preferem dizer com uma quase sinceridade: "Não some não", logo depois se recostando no sofá junto a preguiça, esquecendo o interlocutor até que o próximo acaso nostálgico os una em presente no passado.

Com todo o meu coração metonímico (quem me dera um literal, para sangrar todas as letras que saem dele!),


Eu-lírico

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Calmaria

Escorre de mim uma torrente de sei lá o que. O dia não foi tudo o que podia ser, mas nem por isso entendo de onde vem essa tristeza que a tão pouco tempo adentrou deseducada, sem pedir licença ou se preocupar se iria incomodar. E incomoda.
É engraçado saber que toda a dor do mundo cabe em um só ser, nem que seja por pouco tempo, enquanto a apatia se distrai olhando a chuva e a alegria se cansa de correr atrás de si. Agora me lembro, que em meu sonho chorei copiosamente, lágrimas tantas que creio nunca ter derramado enquanto na inconsciência da realidade. Foi assim que chorou minha mãe, também em sonho, quando vovó viajou...Um dia antes de meu primeiro encontro com a despedida,vi seu rosto inchado e soluçante, e sua dor me doeu tanto que acordei com as mesmas lágrimas, apagadas do amanhecer pelo véu de outros sonhos. Dias mais tarde encontrei, perplexo, esta lembrança, enquanto remexia nos porões de mim mesmo a procura de consolo para a inconsolável verdade.
Encontrei entre um parágrafo e outro, uma mágoa pra chorar, e nem por isso achei forma de soltá-las de mim. Pois que se não consigo diluir esse aperto em águas salinas, sei que tenho, ao menos, palavras escritas para carregá-lo, pouco a pouco, para outros ventos, como pássaros a dispersar sementes. Mesmo que daninhas, são vivas, e trazem o poder de despertar do sonho de rotina aquele que lhes permitir brotar.
Ó, palavras, minhas amigas e confidentes dos momentos mais cheios de vazio, digam a quem quiser saber que o sentimento, mesmo que seja a coisa mais fina do mundo, é ferida que quando aberta pelo próprio coração, não cicatriza jamais, e é insensato por natureza, na sua beleza (naturalmente) inconseqüente.
Dito isto, esperarei sentado por hoje pelo retorno da vontade gostosa de viver, de sentir a brisa e amar sua existência secreta, de boiar sem medo das ondas e com as ondas brincar de ser feliz. Como invejo quem sofre a queda e sabe se levantar.