Das coisas que nos dizem e não compreendemos e nos arrepiam. De onde vem essa sabedoria? Tenho dos sonhos alheios uma certa vergonha, como se suas ingenuidades fossem despudores, expostos demais para o meio-dia - porque não os deixamos embaixo do travesseiro, protegidos em penumbra, abafados do clamor da vida? Sei que prefeririam, mas quando me vem em doses altas, também não os resisto; destilo.
As certezas cada vez mais escassas, os dias entre sustos e apatias, os encontros matando urgências e a rotina não sacia. De bocas conhecidas as mais diferentes tristezas me vem encontrar todos os dias. Respiro. Já não tenho as respostas e a voz animadora que antes cultivava a mel e companhia. Meus conselhos são duros, minha esperança estiada. Já não faço distinção entre as dores tantas, as sangrentas e as brandas. As minhas não as encontro, parece que nunca as tive. Vim a observar e meus olhos crescem a olhos vistos. Não sei se astigmata, mas tudo adquiriu uma opacidez, os limites e as individualidades já não se distinguem e eu preciso tocar para saber exatamente a quem me dirijo. Sinto quem sente e silencio.
A minha nudez é que ainda acredito, e acredito muito. No Amor, nas pessoas, no mundo. Em Deus, ou qualquer coisa parecida que tem uma lógica muito louca que cada um entende um pouquinho mas jura que a do outro é outra e muito mais louca, impossível, invisível, muda. Creio que sim. Sim, creio que creio.
Se eu olhasse a realidade assim, despreparadamente crente, seria tão forte como ser um sonho ao sol direto, o desespero de ver as coisas como deveriam e não são - algumas que são e fingem que não, outras que juram: jamais serão. É preciso cautela, o mundo não se vive todo de uma vez - a dose é maior que o fígado e a alma se corrompe em cirrose se baila sempre embriagada em nudez. Deixa ser, que um dia as coisas se ajeitam. Hoje é hoje e não há mais nada que Hoje possa ser.
O pôr do sol é o meu favorito do dia. Um segredo óbvio, mas suaviza.