quarta-feira, 31 de maio de 2017

30 de Maio
Dia de Sol
Dia de Joana
Melhor pedaço de mim
é o que deixei guardado
à vista
a poeira dos dias que me molda a face
grão por grão
como que sem querer
como que por destino
e há de ser

É água
que me lava os olhos
e me ajuda
sem pressa
porque enxergar é árduo por demais

Carrego comigo as esperanças de outros tempos
sempre-vivas
criança que fui e crio
minha mata sagrada
meu curumim

Quem nasce primeiro como que chama?
Ancestral.
Aprendeu o que coube
me passou que basta
e o resto aguarda
até que pronto, peça

Tem coisa que vem sei lá de onde
tem saber que se desconhece
tem força que pode tudo
tem fogo que queima quebranto
tem fé que faz acreditar
tem amor que dói
mas brota
cresce
frutifica
espalha rama
e afago
pede benção
e cuidado
dá a vida
pra morrer inteiro
e nascer de novo
o melhor pedaço desse mundo torto
dorme no profundo lençol
cerrado que resiste
e insiste
pai-mãe-irmão-amigo
meu-seu-nosso
indizível mistério
imensidão

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tarde agora, lá fora

Aquelas tardes
o sol morno
a casa silenciosa
as expectativas dormem
nada a fazer
existir

Era tarde
aquele dia que não voltaria
um contemplar agudo
o medo implícito
a tentativa de gravar na pele
o sopro que passava
e nós agradecemos
em silêncio

Foram tardes
uma mescla de ocasiões semi-perfeitas
cobertas pela poeira da nostalgia
brilhando o sol que deita
a despedida

Fez-se tarde
as manhãs desalentadas em que desperto
perco a memória
e a esperança

Muito tarde
(ou seria cedo pra lamentar a junventude perdida?)
meus amores desencontrados
o tempo mais rápido que eu
o coração que encolhe
atrofio

Fim de tarde
sem saber aonde por o sol
pode ser que nunca mais encontre
as tarde que vivi
não arejei
podem estar mofadas
imprestáveis
mas ainda assim, as quero
peço que retornem
aceito-as como estiverem

Quem as encontrar
diga de mim
falem da saudade inconformada
das eternas tarde de amor que jorrava
como se nunca fosse ser tarde
como se nunca tivesse fim.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Antes de 20 de Novembro

Te fazer uma música no meio da madrugada
louco de sono
de olhos bem abertos
e delirantes

Juntas o que resta
de objetos
     memórias
     dignidade
e te entregar

Pegar as coincidências
ironias do destino
sua cama nova
as aparições palpitantes no meu celular
esquinas do centro da cidade
e jogar tudo pela janela
do 12o
no bueiro
do tempo-espaço
na falta de sentido
de uma noite passada a limpo
olhando pro teto
vendo você

Quem rima sabe o que vai acontecer
quando chegar ao fim do próximo verso?
Eu não sei
bastaria acabar a noite
sem preceber
conduzido por um sonho absurdo
muito mais lógico que esses dias
de ódio endêmico
amores sem-teto
colapso humanitário

É bonito isso de a tinta combinar com o esmalte
tudo tão sanguíneo

Já que sua presença insiste em rondar
noites claras de cama não acolhedora
tenha a fineza
apague a luz
me faça um cafuné
um estribilho
deite-se comigo pra diminuir o vazio.
Vem, solidão.