segunda-feira, 29 de março de 2010

aéreo

Tua roupa tem seu cheiro
teu cheiro tem seu cheiro
tua boca (claro!) tem seu cheiro,
aquoso e seco.

Vou me perfumar com sua essência;
biopirataria não é crime
segundo as leis do coração.
Vale mais uma memória que a liberdade
sentimental

quinta-feira, 25 de março de 2010

Anil

Antes de, 23 de Março

Desesperadora mente inconseqüente
Não diz o que sente
Mente, descarada mente,
a incontrolável psicopata.



Neste teclado, Agora
Amadíssimo Palíndromo,


Não pude deixar de observar os louros que recebes agora por sua bravura perante as pequenezas da alma. No ponto crítico da batalha, largaste o elmo, o escudo, e as armas para se jogar nu, de bandeira em punho, nos terrenos hostis, traiçoeiros por permanecerem ocultos aos olhos de quem os vê com receio.
Queria ter o seu talento, transformando afeto em poesia do singular. Mas não surgindo esta obra, fica o meu sentimento de orgulho, pois você foi forte por todos nós. Esconder o (para alguns) inimaginável não foi tarefa difícil, embora singelamente perfuro-cortante. Mas, da bruta fragilidade retirar amazona destemida é lindo, meigo e digno de glória.
Que o calor forte do teu sol acorde todos os guerreiros das cavernas, e que saiam - como Seu Tiago - a luz e a luta, pois a vida é curta e a espera pode ser eterna.

Beijíssimos de alma a alma,

Última Letra

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tumzão

Bateu.
Não sei donde vem,
tem tanta pressa que nem se anuncia.
tem apelo riso: ama!

Vontade cosquinhenta de abraçar forte
enterrar cabeças no peito
ser por todos sorriso e bem.
Fica, ó quentura!
Não me deixa secar em deboche
fixar em desespero só

Ajuda! Seguir o mantra,
razão maior desta vida:
seja feliz, seja muito feliz.
Amém

quinta-feira, 4 de março de 2010

Meus

Deus,

Obrigado por eles. Não quero entrar na metafísica de sua existência, justiça ou papel social; venho apenas agradecer o presente, mesmo que as vezes, em ironia, esse lhe seja maldizente. Lembra quando eu era pequeno? Ficava acuado em meu orgulho, com medo de abandonar a superioridade me misturando, pois assim seria frágil perante os dedos apontados (dedos estes as vezes melequentos e ridículos - mas que estrago pareciam poder fazer!).
Nesta época chegou grudento o primeiro deles, e antes que eu dissesse não, fez uso capião de meu 64. Poderia discursá-los absolutamente todos (os seres atemorizados sabem contar os segundos), mas enfadonho seria - e se realmente tudo vede, perderíamos ambos nosso tempo, e me deste pouco deste por estas bandas. Quando vier a sugestão cardíaca, dissecarei individualmente estes curiosos espécimes. Por hoje, basta dizer que (graças a Deus!) foram vários e sublimes.
O que vejo de mais precioso, e sempre me rio bobo sem querer quando repercebo, é que por mais em mim que os tenha, são absolutamente não meus. É no livre-arbítrio (outro regalo Vosso) que tenho donde agradecer; muito se disse, se riu e si triste, e sem que qualquer um de nós viesse a adivinhar ou impedir, criou-se o laço ou, melhor dizendo, o nó, que mesmo em incômodo ou desencontro, não será por nenhum santo desfeito.
Me perdoe a pieguice (como não ser óbvio diante da eterna sabedoria?), mas por estes diem carpediae, Senhor, muito obrigado.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Para saber de mim, é preciso conhecer este que é um dos meus Nortes. Prestando uma atenção sincera, saberá que as vezes o declamo em picotes - como foi-me apresentado. Sem mais delongas, o hino da não-obediência.


Cântico negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!