segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tarde agora, lá fora

Aquelas tardes
o sol morno
a casa silenciosa
as expectativas dormem
nada a fazer
existir

Era tarde
aquele dia que não voltaria
um contemplar agudo
o medo implícito
a tentativa de gravar na pele
o sopro que passava
e nós agradecemos
em silêncio

Foram tardes
uma mescla de ocasiões semi-perfeitas
cobertas pela poeira da nostalgia
brilhando o sol que deita
a despedida

Fez-se tarde
as manhãs desalentadas em que desperto
perco a memória
e a esperança

Muito tarde
(ou seria cedo pra lamentar a junventude perdida?)
meus amores desencontrados
o tempo mais rápido que eu
o coração que encolhe
atrofio

Fim de tarde
sem saber aonde por o sol
pode ser que nunca mais encontre
as tarde que vivi
não arejei
podem estar mofadas
imprestáveis
mas ainda assim, as quero
peço que retornem
aceito-as como estiverem

Quem as encontrar
diga de mim
falem da saudade inconformada
das eternas tarde de amor que jorrava
como se nunca fosse ser tarde
como se nunca tivesse fim.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Antes de 20 de Novembro

Te fazer uma música no meio da madrugada
louco de sono
de olhos bem abertos
e delirantes

Juntas o que resta
de objetos
     memórias
     dignidade
e te entregar

Pegar as coincidências
ironias do destino
sua cama nova
as aparições palpitantes no meu celular
esquinas do centro da cidade
e jogar tudo pela janela
do 12o
no bueiro
do tempo-espaço
na falta de sentido
de uma noite passada a limpo
olhando pro teto
vendo você

Quem rima sabe o que vai acontecer
quando chegar ao fim do próximo verso?
Eu não sei
bastaria acabar a noite
sem preceber
conduzido por um sonho absurdo
muito mais lógico que esses dias
de ódio endêmico
amores sem-teto
colapso humanitário

É bonito isso de a tinta combinar com o esmalte
tudo tão sanguíneo

Já que sua presença insiste em rondar
noites claras de cama não acolhedora
tenha a fineza
apague a luz
me faça um cafuné
um estribilho
deite-se comigo pra diminuir o vazio.
Vem, solidão.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Madrugada

Madrugada, 28 de Julho de 2016
Todas as cartas de amor são ridículas
foi pessoa quem me disse
apenas não me informou
como deixar de escrevê-las

penso agora no livro que te dei
com dedicação
e nunca leu

vejo sua figura que chega
inesperada
a aparência mudada
quero criticar
ignorar
mas eu gosto.

Passado o desentender meu estado de calamidade
passada a indiferença ao meu desespero
te vejo, santo, a estender os braços
um gesto de quem ama sem fogo
de quem quer metades.
a compaixão do capataz
não faz aliviar a dor

Agora que te vejo sóbrio
vejo a sombra do que um dia foi
meu sonho de que um dia fosse
ou aquilo que completei
o que lhe faltava
eu tirei de mim e lhe dei
mas o que é meu só vive assim,
comigo perto.

Esta poesia eu não lhe entrego.
Ela é toda minha, ainda que ainda fale de você
o que dei está dado, o que recebi não foi cobrado.
Me esvazio de ti em tinta e papel
assim durmo mais tranquilo
sobra mais espaço na cama sem a sua memória inquieta a rolar e roubar cobertas.

Pessoa me recomendou também:
não faça como gente vulgar.
vou evitar
se te vir - e verei
dar-te-ei um abraço. E segurei, e seguirei, e seguirei