domingo, 17 de abril de 2011

(a)(o)mar

Depois de brisas, chuva fina, temporais, ventanias, granizo na boca do estômago, mormaços e outras instabilidades meteoro-sentimentais chega um dia azul-abril, parece que o tempo vai firmar.
Aí vem a noite, uma lua dita linda compartilhada sem aproximação. E todo o caos lá fora poderia mesmo passar, e todos os dias poderiam ser previstos como bons tempos, mas foi aqui - na terra batida que pisamos dormimos e rolamos - que por descuido e vinho vieram ressecamentos, que viraram rachaduras, que tremeram a terra e causaram o nosso desabamento. Dessoterrado dos destroços, eu procuro reconstruir o alicerce e acreditar nas promessas promissoras, ou num único hoje ensolarado sem partes nubladas. Acabei de entender - acho que vi  n(o reflexo d)a TV -  que o ruir do meu chão pode ter sido em um segundo de desdedicação, mas reverberou longe onde nem da pra ver, e de tempos em tempos, sem aviso prévio ou sirene, vai vir uma onda carente me abraçar, me lamber e levar os pedaços que custei a juntar do que havia pra me segurar.

Certo dia cansarei de insistir na minha cabaninha abafada de lona mal feita - constantemente subitamente desfeita - e repousarei a luz das estrelas, no relento do meu mundo, na certeza de amar essa beleza, selvagem carinho, na felicidade de me deitar em mim

Até lá

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

uma rua chamada Floripes

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Floripes bonita e calma
das mais antigas da cidade
cercada de corpos (hoje) frescos
seus primeiros dias
- flor da idade -
(hoje) ninguém sabe, ninguém viu.
ninguém lembra.

Floripes e a sombra das árvores
o almoço simples
o ritmo lento
uma mesa
hoje 
repousando na calçada

Florípes e os carros
hoje
barulhentos
velhos rabugentos
meninos traquinas
um susto (hoje), um surto de incômodos
no meio da madrugada.

Floripes a guardiã da vida
hoje silenciosa.
agitada no horário de todos
por ela hoje passam, ficam ou não
crianças do bê-a-ba
mendigos, famílias, gordas senhoras, médicos e enfermidades
forasteiros
irmãs branquinhas
e os bêbados que riem alto em sua cabeça
tentando na labuta de todos os dias
esquecer hoje
todos os dias

nela muita vida há
hoje vive.
muitas casas, muitos sapatos,
alguns hoje descalços,
todos a conhecem pelo nome
se hoje a chamam,
não responde.
aceita as pisadas e os calos,
agradece a limpeza
a televisão a lhe falar do mundo
hoje.
Ontem foi assim?
não, ontem nunca foi.

Floripes a primeira dama-flor-rua da cidade
tem memórias de todos os tempos
hoje não lembra onde
guardou
acha algumas jogadas
fragmentos de outros
hoje

Floripes hoje esqueceu
o amor que recebeu
ontem
antes de ontem
antes de outrem
antes de seu eterno hoje
mas ela sabe, eu sei que ela sente
o amor que lhe cultivam
sempre

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

trans-verso

Para entender a vida

não-vida

parece batido

parece banal

poucos abrem as carnes

e não as comem

e menos ainda

o fazem com desgosto e curiosidade

sem saber escolher qual lhe quer mais.

chorando formol e rindo com os dentes dos outros