sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

uma rua chamada Floripes

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Floripes bonita e calma
das mais antigas da cidade
cercada de corpos (hoje) frescos
seus primeiros dias
- flor da idade -
(hoje) ninguém sabe, ninguém viu.
ninguém lembra.

Floripes e a sombra das árvores
o almoço simples
o ritmo lento
uma mesa
hoje 
repousando na calçada

Florípes e os carros
hoje
barulhentos
velhos rabugentos
meninos traquinas
um susto (hoje), um surto de incômodos
no meio da madrugada.

Floripes a guardiã da vida
hoje silenciosa.
agitada no horário de todos
por ela hoje passam, ficam ou não
crianças do bê-a-ba
mendigos, famílias, gordas senhoras, médicos e enfermidades
forasteiros
irmãs branquinhas
e os bêbados que riem alto em sua cabeça
tentando na labuta de todos os dias
esquecer hoje
todos os dias

nela muita vida há
hoje vive.
muitas casas, muitos sapatos,
alguns hoje descalços,
todos a conhecem pelo nome
se hoje a chamam,
não responde.
aceita as pisadas e os calos,
agradece a limpeza
a televisão a lhe falar do mundo
hoje.
Ontem foi assim?
não, ontem nunca foi.

Floripes a primeira dama-flor-rua da cidade
tem memórias de todos os tempos
hoje não lembra onde
guardou
acha algumas jogadas
fragmentos de outros
hoje

Floripes hoje esqueceu
o amor que recebeu
ontem
antes de ontem
antes de outrem
antes de seu eterno hoje
mas ela sabe, eu sei que ela sente
o amor que lhe cultivam
sempre

4 comentários:

matheus matheus disse...

Alma encantadora...
O amor é difícil
exercício...
O amor é diário no qual tudo se guarda e tudo se perde
O amor é uma obrigação
de antemão

O peso do mundo
é sim
o peso

ana f. disse...

não poderia haver verso mais bonito do que o seu pra falar do meu passarinho preferido. amo você, grande poeta!

ana f. disse...

se todo dia é sempre hoje, nada mais natural do que o hoje virar sempre, no que chamam de derradeiro verso, mas eu prefiro chamar de fronteira imaginária entre os líquidos indistintos que compõem seu brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Carolina Arantes disse...

pareço sentada numa mesa de metal na calçada, a olhar a crônica dos transeuntes - pilares para uma história maior,duas visões se mesclam,criador e criatura