Estava calor dentro. Era o álcool sentimentalizado. De um lado do portal, naquela cena cinematalizada, se encontrava um muito querido desconhecido. Em seu oposto, a água descia do céu e respingava os pés do autor. Trocavam lamentações muito íntimas, sem retribuir conforto ou esperar compreensão, imersos que estavam em seus vazios próprios.
“A minha maior dor é o meu amor"
Espantou-se com a beleza do que dissera, e fingiu modéstia para si e para o companheiro. Nunca havia dito algo tão profundo, que embora simplório e pouco digno de nota, transcendia a sua essência, e dias depois ainda ruminava aquela linha de verdade. Ficou triste com a pequenez da onda que atingira o companheiro, pois quando sua fala lhe calara a voz, fez ressoar em paradoxo todas as convicções da garganta que o encarava no ladrilho escuro. Era a primeira vez naquele dia cabalístico que sua carência viera nadar à superfície, seu desejo de ser abraçado e abafar sua dor (obviamente a sua somente) em peito amigo abafou-se sozinho em seu ego tímido e descolorido. Voltou a beber.
De tudo o que fizeram, do mais que falara e sentira na data planejada para a perfeição, nada comoveu-lhe como ele próprio, e soube que isto precisava ser dito. Pediu-me que escrevesse essa carta em seu nome, o que é fácil por demais; não assino por outros nomes.
21 de Outubro de 2009
Querida Amada,
Escrevo-lhe na iminência de sua não leitura. Que outra forma para dizer tão claramente os vorazes pensamentos que trancafiei na mobília de vidro? Se não (se) importa, Lagartinha, preciso desafogar o coração. Ei-lo aqui, nesta mesa. Vê o quanto está necrosado? É o sangue que evita os pedaços mais incômodos, extirpando a vida de uma parte intrínseca de mim. Serão as letras meu bisturi, e você minha audiência ilusória, assistente indispensável a delicadíssimo procedimento.
Sabe aquela vez que deitamos na grama, a imaginar nomes que saltavam traquinas entre os galhos mais altos das árvores observadas? Ou quando trocamos tripas ensangüentadas pela rede? Aquela vez em que, entre gestos de ternura, sua mãe nos assustava de longe com o fantasma de sua presença - sem conseguir, contudo, afastar a sensação de completude? Sabe aquela rotina desesperadoramente breve, de flores e sofás, almoços e computadores? Pois é, não os joguei fora como seria socialmente saudável se fazer; velharia varrida pela boca afora, enquanto se arruma a casa para a próxima visita. Eu os trancafiei neste maldito baú, esperando contra minha vontade que você voltasse a habitar em mim, para mostrar-lhe orgulhoso que já sabia de seu retorno, e que esperaria para sempre se preciso. Nada cabe melhor ao fazer poético que amores impossíveis, imateriais, irresolúveis e imutáveis. Mas finais felizes se resguardam para a irrealidade proposital dos filmes. E para nós, o que pensas que há de ser? Da sua vida já me destes a resposta: A fuga, o levianismo, a autocrueldade. Que pensas que me cabe melhor? A estagnação? Creio que faria muito bem (secretamente, é claro) para sua vaidade; não existe prazer mórbido que se compare a ser inesquecível, arranhar e sair lisa de qualquer reciprocidade.
Parar, eu sei, seria o teu pedido. Diria para deixar cicatrizar as feridas antigas, largar o lixo até que apodreça e se desfaça sozinho. Isso se não fôsseis uma mera alucinação de conveniência e, portanto, convenientemente muda. Ao menos dessa vez, agiremos pensando em mim. Eu nunca adentrei por campos tão inóspitos com ninguém. Veja o capim alto, o cheiro de morte e azedume que enlaçam minhas pradarias, dantes tão verdes e frutescentes. É claro que esta não foi minha primeira opção, muito menos a mais simples. Mas precisava... Entenda:
Nestes três anos interruptos de não correspondência, houve para mim vários namoricos, que se esfacelaram antes mesmo de serem sabidos ou talvez sentidos pelas outras, me deixando sempre na cômoda posição de vítima do universo, permitindo cada qual mais alguns meses do luto secretamente procurado, revertido de forma indireta ou indiscreta para ti, misturado a invejinha de ver-te (bem?) acompanhada durante minha solidão. Nestas horas, todas as tralhas do baú se agitavam, urgindo carinhosamente seu nome. Mamava essas lembranças até me sentir tão cheio que adormecia encolhido no chão do sótão, no gasto casebre de madeira que fiz para abrigar-te do mau tempo dentro de minha ilha de finalidades conhecidas.
Se a passividade do oceano não bastou para desfiar este nós, não existe distância ou tempo que o faça. Esses anêmicos dias de desencontro, portanto, não me cabem de razão. Voltei porque, pela primeira vez desde logo após, quis derrubar o altar de sua divindade, e em seu alicerce, construir algo que me proteja em vez de me agredir, e neste lugar aconchegante, morar com alguém especial, que insiste em mim! E da neblina desnorteadora de minhas estúpidas convicções, finalmente ouvi uma voz que chama sem cessar a primeira tentativa, e sua quentura, sua simplicidade brutal e sua meiguice mal escondida trouxeram-me a essa mesa, a esse bisturi, a essa tentativa de coragem de ir além das banais fronteiras imaginárias da minha felicidade. Quando a existência clamava que sim, me agarrei medroso ao baú, deixando na tempestade exterior quem mais merecia abrigo. Não mais.
Compreende agora? Foi por isso que criei este encontro, e depois de mundos gastos para manter a dor de sua ausência por perto, abri com chave até então inexistente a parte mais protegida de minhas memórias. Não havia outro jeito! Esperei que morressem, que desvanecessem, definhassem, evaporassem, que se matassem, esperei. Não perecerão... Pois que vivam! Mas vivam soltas por aí, livres e felizes, sem se preocupar com a tortura da eterna existência.
Tenho, sim, muitos porquês a apontar, muitas máguas pra cuspir-te na cara, as explicações mais minuciosas a exigir. Mas que voem também para fora, já que sua miséria não me faz mais feliz, nem a minha prova a sinceridade de meus eternos sentimentos. Alonguei-me por demais. Tenho zilhões (e não duvide dos números!) de músicas pra cantar-te aqui, mas tiro agora o seu direito a todas elas, ficando para mim a vida que seguirá. Não resistirei a deixar-te uma de lembrança: Me deixa em paz.
Desejo que seja muito feliz, e que eu, pela primeira vez, seja mais ainda.
Bom...
Adeus.
3 comentários:
ah, o amor! essa coisa que a gente acha que vai, mas volta, porque nunca foi... é boa e ruim (mais) essa insistÊncia dentro da gente... essas músicas repetidas, que só são bonitas pelas lembranças que inventamos, mas têm acordes e rimas pobres, dissonâncias arrogantes, rios rasos, como o peito de outra pessoa, que a gente quer que seja fundo... mas não adianta... não há espaço pra mergulhar... sei bem como é... amar demais e só... amar é só.. nunca senti que sentissem por mim o que senti por tantos amores.. e começo a concordar com você.. amor é um. fica bem, meu amigo de dentes roxos!
gostei disso: o personagem pedindo uma carta para o autor. a história-ficção, o contexto-canal de blog, e o sentido se confundem de uma forma interessante. é algo a se explorar mais...
percebi também o tanto que o teatro te influencia na escrita. não sei para você, se era intenção, mas para mim ficou muito clara essa impressão. gosto muito desse tipo de texto, mas assim só escrito deixa a sensação de incompleto (não no sentido de um possível recurso literário)
fiquei feliz em finalmente ter tempo (ou me dar um) de ler um texto seu com mais atenção:
, afinal eles são grandes!
Amores existem, e cada um é um, todos têm sua marca funda. É preciso ter coragem para transcender A dor conhecida e acreditar na renovação desse sentimento, como planetas que se alinham de tempos em tempos. Que cada vez seja a primeira e muito feliz.
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