segunda-feira, 27 de junho de 2016

Jabuticaba

hoje

Te sinto cada dia mais longe

hoje cheguei em casa e o bonsai estava seco, amuado.
ele fica assim todo dia
e todo dia alguém precisa colocar um pouquinho de água
um pouquinho, porque se não escorre
um pouquinho, porque se não morre

todos os dias eu olho pro bonsai e sinto afeto
aquele sorriso
que ofertamos
até mesmo para aqueles que não veem

o bonsai tem seus limites
de toda a sua potencialidade arbórea
muito pouco se concretizou.
ainda assim, seus frutos são grandes e doces
em nada ficam a dever para suas irmãs gigantes
se não dá tantos, é porque não consegue
não tem os meios
mas faz tudo o que pode
sempre gratos ressaltamos

se, por descuido, passam-se dois dias e ninguém repara
o bonsai logo sente
as folhas amarelam. secam. caem.
de dois dias nunca passou
amamos o bonsai e cuidamos dele
foi presente de um amigo querido

Te sinto cada dia mais longe.

M

de 25 de Junho de 2016
Amor, meu grande amor,
você conhece o significado disso tudo?
Se o abraço não sabe terminar, quem saberia?

Amor, meu grande amor,
te espero na última esquina.
Faço um desvio para o seu caminho
Tomara que você também faça
E o encontro possa ser nossa morada.

Amor, meu grande amor.
Tão diferente de tudo que eu conheço.
Me divirto com suas estranhezas familiares
me apoio na certeza de um instante eterno
me satisfaço com um olhar de afeto
que vejo a refletir o infinito

Amor, meu grande amor.
Te quis por mais um pouquinho
todos os anos por vir já me bastariam.

Amor, meu grande amor,
nos despedimos antes da hora marcada.
não sou grande, meu amor, mas fui inteiro.

Amor,
seu grande amor
há de estar ainda a sua espera
na próxima esquina, talvez.

ande mais atento a cada passo
e as flores da calçada
cuida de si
dos seus medos monstros
da ansiedade
da garrafa de água da geladeira

ainda assim eu te peço,
sem que seja para ficar.

Quando me reencontrar

meu grande amor

me reconheça

amor,

terça-feira, 11 de novembro de 2014

para Matheus e Delírio

Das coisas que nos dizem e não compreendemos e nos arrepiam. De onde vem essa sabedoria? Tenho dos sonhos alheios uma certa vergonha, como se suas ingenuidades fossem despudores, expostos demais para o meio-dia - porque não os deixamos embaixo do travesseiro, protegidos em penumbra, abafados do clamor da vida? Sei que prefeririam, mas quando me vem em doses altas, também não os resisto; destilo.

As certezas cada vez mais escassas, os dias entre sustos e apatias, os encontros matando urgências e a rotina não sacia. De bocas conhecidas as mais diferentes tristezas me vem encontrar todos os dias. Respiro. Já não tenho as respostas e a voz animadora que antes cultivava a mel e companhia. Meus conselhos são duros, minha esperança estiada. Já não faço distinção entre as dores tantas, as sangrentas e as brandas. As minhas não as encontro, parece que nunca as tive. Vim a observar e meus olhos crescem a olhos vistos. Não sei se astigmata, mas tudo adquiriu uma opacidez, os limites e as individualidades já não se distinguem e eu preciso tocar para saber exatamente a quem me dirijo. Sinto quem sente e silencio.

A minha nudez é que ainda acredito, e acredito muito. No Amor, nas pessoas, no mundo. Em Deus, ou qualquer coisa parecida que tem uma lógica muito louca que cada um entende um pouquinho mas jura que a do outro é outra e muito mais louca, impossível, invisível, muda. Creio que sim. Sim, creio que creio.

Se eu olhasse a realidade assim, despreparadamente crente, seria tão forte como ser um sonho ao sol direto, o desespero de ver as coisas como deveriam e não são - algumas que são e fingem que não, outras que juram: jamais serão. É preciso cautela, o mundo não se vive todo de uma vez - a dose é maior que o fígado e a alma se corrompe em cirrose se baila sempre embriagada em nudez. Deixa ser, que um dia as coisas se ajeitam. Hoje é hoje e não há mais nada que Hoje possa ser.

O pôr do sol é o meu favorito do dia. Um segredo óbvio, mas suaviza.