quinta-feira, 4 de março de 2010

Meus

Deus,

Obrigado por eles. Não quero entrar na metafísica de sua existência, justiça ou papel social; venho apenas agradecer o presente, mesmo que as vezes, em ironia, esse lhe seja maldizente. Lembra quando eu era pequeno? Ficava acuado em meu orgulho, com medo de abandonar a superioridade me misturando, pois assim seria frágil perante os dedos apontados (dedos estes as vezes melequentos e ridículos - mas que estrago pareciam poder fazer!).
Nesta época chegou grudento o primeiro deles, e antes que eu dissesse não, fez uso capião de meu 64. Poderia discursá-los absolutamente todos (os seres atemorizados sabem contar os segundos), mas enfadonho seria - e se realmente tudo vede, perderíamos ambos nosso tempo, e me deste pouco deste por estas bandas. Quando vier a sugestão cardíaca, dissecarei individualmente estes curiosos espécimes. Por hoje, basta dizer que (graças a Deus!) foram vários e sublimes.
O que vejo de mais precioso, e sempre me rio bobo sem querer quando repercebo, é que por mais em mim que os tenha, são absolutamente não meus. É no livre-arbítrio (outro regalo Vosso) que tenho donde agradecer; muito se disse, se riu e si triste, e sem que qualquer um de nós viesse a adivinhar ou impedir, criou-se o laço ou, melhor dizendo, o nó, que mesmo em incômodo ou desencontro, não será por nenhum santo desfeito.
Me perdoe a pieguice (como não ser óbvio diante da eterna sabedoria?), mas por estes diem carpediae, Senhor, muito obrigado.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Para saber de mim, é preciso conhecer este que é um dos meus Nortes. Prestando uma atenção sincera, saberá que as vezes o declamo em picotes - como foi-me apresentado. Sem mais delongas, o hino da não-obediência.


Cântico negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

a muralha

cartas na mesa.
Mais uma vez as palavras
secretos murmurios d'alma
livros de entrelinhas.

De volta o ouvido no muro
perante qualquer sinal de vida
como se o eco das paredes
fosse explicar o universo

Sanidade, vá para o quarto
(não quero que assista a essa cena)!
ninguém contou
tudo o que se perde na esperança
de encontrar

.
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você