cartas na mesa.
Mais uma vez as palavras
secretos murmurios d'alma
livros de entrelinhas.
De volta o ouvido no muro
perante qualquer sinal de vida
como se o eco das paredes
fosse explicar o universo
Sanidade, vá para o quarto
(não quero que assista a essa cena)!
ninguém contou
tudo o que se perde na esperança
de encontrar
.
.
.
.
.
.
você
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
de repente
Quem foi que ti disse
Que era tão simples?
Falar que me amavar
Fugir sem perdão.
De onde partia
A estrada infinita,
Morada das curvas
por onde há razão?
Pra que essa raiva?
De onde esse mando?
Pra que o teatro?
Ser crú é tão bom!
Queria dizer-te,
Queria calar-te,
Mas lágrias ridas
São contradição.
Se soubesse amar-me
As bodas de outrora
Deixaria o azedo,
Cuspiria seu medo,
Viveria mais cedo,
Chegaria de não.
Que era tão simples?
Falar que me amavar
Fugir sem perdão.
De onde partia
A estrada infinita,
Morada das curvas
por onde há razão?
Pra que essa raiva?
De onde esse mando?
Pra que o teatro?
Ser crú é tão bom!
Queria dizer-te,
Queria calar-te,
Mas lágrias ridas
São contradição.
Se soubesse amar-me
As bodas de outrora
Deixaria o azedo,
Cuspiria seu medo,
Viveria mais cedo,
Chegaria de não.
sábado, 12 de dezembro de 2009
Carta do Não Adeus
Esta não é outra senão a mesma, mas com a revisão que a muito tempo merecia. Deveria na verdade apenas editar o texto antigo, mas tenho um apego infantil ao passado, não sei me desfazer das coisas, por mais ultrapassadas, inúteis ou ruins que sejam. Ironicamente este também é o assunto da carta. Leia-se esta somente, a outra fica esperando minha vontade de seguir em frente.
12 de Dezembro de 2009
Querida Amada,
Escrevo-lhe na iminência de sua não leitura. Que outra forma para dizer tão claramente os vorazes pensamentos que trancafiei na mobília de vidro? Se não (se) importa, Lagartinha, preciso desafogar o coração. Ei-lo aqui, nesta mesa. Vê o quanto está necrosado? É o sangue que evita os pedaços mais incômodos, extirpando a vida de uma parte intrínseca de mim. Serão as letras meu bisturi, e você minha audiência ilusória, assistente indispensável a delicadíssimo procedimento.
Sabe aquela vez que deitamos na grama, a imaginar nomes que saltavam traquinas entre os galhos mais altos das árvores observadas? Ou quando trocamos tripas ensangüentadas pela rede? Aquela vez em que, entre gestos de ternura, sua mãe nos assustava de longe com o fantasma de sua presença - sem conseguir, contudo, afastar a sensação de completude? Sabe aquela rotina desesperadoramente breve, de flores e sofás, almoços e computadores? Pois confesso que não os joguei fora - como seria socialmente saudável se fazer; velharia varrida pela boca afora, enquanto se arruma a casa para a próxima visita. Eu os trancafiei neste maldito baú, esperando contra minha vontade que você voltasse a habitar em mim, para mostrar-lhe orgulhoso que já sabia de seu retorno, e que esperaria para sempre se preciso. Nada cabe melhor ao fazer poético que amores impossíveis, imateriais, irresolúveis e imutáveis. Mas finais felizes se resguardam para a irrealidade proposital dos filmes. E para nós, o que pensas que há de ser? Da sua vida já me destes a resposta: A fuga, o levianismo, a autocrueldade. Que pensas que me cabe melhor? A estagnação? Creio que faria muito bem (secretamente, é claro) para sua vaidade; não existe prazer mórbido que se compare a ser inesquecível, arranhar e sair lisa de qualquer reciprocidade.
Parar, eu sei, seria o teu pedido. Diria para deixar cicatrizar as feridas antigas, largar o lixo até que apodreça e se desfaça sozinho. Isso se não fôsseis uma mera alucinação de conveniência e, portanto, convenientemente muda. Ao menos dessa vez, o egoismo redondo. Eu nunca adentrei por campos tão inóspitos com ninguém. Veja o capim alto, o cheiro de morte e azedume que enlaçam minhas pradarias, dantes tão verdes e frutescentes. É claro que esta desagradável autópsia não foi minha primeira opção, muito menos a mais simples. Mas precisava... Entenda:
Nestes três anos interruptos de não correspondência, houve para mim vários afetos, que se esfacelaram antes mesmo de serem sabidos ou talvez sentidos das outras metades, me deixando sempre na cômoda posição de vítima do universo, permitindo cada qual mais alguns meses do luto secretamente procurado, revertido de forma indireta ou indiscreta para ti, misturado a invejinha de ver-te (bem?) acompanhada durante minha solidão. Nestas horas, todas as tralhas do baú se agitavam, urgindo carinhosamente seu nome. Mamava essas lembranças até me sentir tão cheio que adormecia encolhido no chão do sótão, no gasto casebre de madeira que fiz para abrigar-te do mau tempo dentro de minha ilha de finalidades conhecidas.
Se a Passividade do oceano não bastou para desfiar este nós, não existe distância ou tempo que o faça. Esses anêmicos dias de desencontro, portanto, não me cabem de razão. Voltei porque, pela primeira vez desde logo após, quis derrubar o altar de sua divindade, e em seu alicerce, construir algo que me proteja em vez de me agredir, e neste lugar aconchegante, morar com alguém especial, que insiste em mim! E da neblina desnorteadora de minhas estúpidas convicções, finalmente ouvi uma voz que chama sem cessar a primeira tentativa, e sua quentura, sua simplicidade brutal e sua meiguice mal escondida trouxeram-me a essa mesa, a esse bisturi, a essa tentativa de coragem de ir além das banais fronteiras imaginárias da minha felicidade. Quando a existência clamava que sim, me agarrei medroso ao baú, deixando na tempestade exterior quem mais merecia abrigo. Até quando?
Compreende agora? Foi por isso que criei este encontro, e depois de mundos gastos para manter a dor de sua ausência por perto, abri com chave até então inexistente a parte mais protegida de minhas memórias. Não havia outro jeito! Esperei que morressem, que desvanecessem, definhassem, evaporassem, que se matassem, esperei. Não perecerão... Pois que vivam! Mas vivam soltas por aí, livres e felizes, sem se preocupar com a tortura da eterna existência.
Tenho, sim, muitos porquês a apontar, muitas máguas pra cuspir-te na cara, as explicações mais minuciosas a exigir. Mas que voem também para fora, já que sua miséria não me faz mais feliz (e isto é certo, pois que vejo teu fosso crescer a olhos vistos), nem a minha prova a sinceridade de meus eternos sentimentos. Alonguei-me por demais. Tenho zilhões (e não duvide dos números!) de músicas pra cantar-te aqui, mas tiro agora o seu direito a todas elas, ficando para mim a vida que seguirá. Se for um homem de sorte, algum dia esquecerei seu nome, ou ao menos seus carinhos cruéis.
Desejo que seja muito feliz, e que eu, pela primeira vez, seja mais ainda. Talvez daqui a alguns dias eu pensenovamente um futuro lindo de comunhão, e pare para esperar.
Não.
Adeus.
12 de Dezembro de 2009
Querida Amada,
Escrevo-lhe na iminência de sua não leitura. Que outra forma para dizer tão claramente os vorazes pensamentos que trancafiei na mobília de vidro? Se não (se) importa, Lagartinha, preciso desafogar o coração. Ei-lo aqui, nesta mesa. Vê o quanto está necrosado? É o sangue que evita os pedaços mais incômodos, extirpando a vida de uma parte intrínseca de mim. Serão as letras meu bisturi, e você minha audiência ilusória, assistente indispensável a delicadíssimo procedimento.
Sabe aquela vez que deitamos na grama, a imaginar nomes que saltavam traquinas entre os galhos mais altos das árvores observadas? Ou quando trocamos tripas ensangüentadas pela rede? Aquela vez em que, entre gestos de ternura, sua mãe nos assustava de longe com o fantasma de sua presença - sem conseguir, contudo, afastar a sensação de completude? Sabe aquela rotina desesperadoramente breve, de flores e sofás, almoços e computadores? Pois confesso que não os joguei fora - como seria socialmente saudável se fazer; velharia varrida pela boca afora, enquanto se arruma a casa para a próxima visita. Eu os trancafiei neste maldito baú, esperando contra minha vontade que você voltasse a habitar em mim, para mostrar-lhe orgulhoso que já sabia de seu retorno, e que esperaria para sempre se preciso. Nada cabe melhor ao fazer poético que amores impossíveis, imateriais, irresolúveis e imutáveis. Mas finais felizes se resguardam para a irrealidade proposital dos filmes. E para nós, o que pensas que há de ser? Da sua vida já me destes a resposta: A fuga, o levianismo, a autocrueldade. Que pensas que me cabe melhor? A estagnação? Creio que faria muito bem (secretamente, é claro) para sua vaidade; não existe prazer mórbido que se compare a ser inesquecível, arranhar e sair lisa de qualquer reciprocidade.
Parar, eu sei, seria o teu pedido. Diria para deixar cicatrizar as feridas antigas, largar o lixo até que apodreça e se desfaça sozinho. Isso se não fôsseis uma mera alucinação de conveniência e, portanto, convenientemente muda. Ao menos dessa vez, o egoismo redondo. Eu nunca adentrei por campos tão inóspitos com ninguém. Veja o capim alto, o cheiro de morte e azedume que enlaçam minhas pradarias, dantes tão verdes e frutescentes. É claro que esta desagradável autópsia não foi minha primeira opção, muito menos a mais simples. Mas precisava... Entenda:
Nestes três anos interruptos de não correspondência, houve para mim vários afetos, que se esfacelaram antes mesmo de serem sabidos ou talvez sentidos das outras metades, me deixando sempre na cômoda posição de vítima do universo, permitindo cada qual mais alguns meses do luto secretamente procurado, revertido de forma indireta ou indiscreta para ti, misturado a invejinha de ver-te (bem?) acompanhada durante minha solidão. Nestas horas, todas as tralhas do baú se agitavam, urgindo carinhosamente seu nome. Mamava essas lembranças até me sentir tão cheio que adormecia encolhido no chão do sótão, no gasto casebre de madeira que fiz para abrigar-te do mau tempo dentro de minha ilha de finalidades conhecidas.
Se a Passividade do oceano não bastou para desfiar este nós, não existe distância ou tempo que o faça. Esses anêmicos dias de desencontro, portanto, não me cabem de razão. Voltei porque, pela primeira vez desde logo após, quis derrubar o altar de sua divindade, e em seu alicerce, construir algo que me proteja em vez de me agredir, e neste lugar aconchegante, morar com alguém especial, que insiste em mim! E da neblina desnorteadora de minhas estúpidas convicções, finalmente ouvi uma voz que chama sem cessar a primeira tentativa, e sua quentura, sua simplicidade brutal e sua meiguice mal escondida trouxeram-me a essa mesa, a esse bisturi, a essa tentativa de coragem de ir além das banais fronteiras imaginárias da minha felicidade. Quando a existência clamava que sim, me agarrei medroso ao baú, deixando na tempestade exterior quem mais merecia abrigo. Até quando?
Compreende agora? Foi por isso que criei este encontro, e depois de mundos gastos para manter a dor de sua ausência por perto, abri com chave até então inexistente a parte mais protegida de minhas memórias. Não havia outro jeito! Esperei que morressem, que desvanecessem, definhassem, evaporassem, que se matassem, esperei. Não perecerão... Pois que vivam! Mas vivam soltas por aí, livres e felizes, sem se preocupar com a tortura da eterna existência.
Tenho, sim, muitos porquês a apontar, muitas máguas pra cuspir-te na cara, as explicações mais minuciosas a exigir. Mas que voem também para fora, já que sua miséria não me faz mais feliz (e isto é certo, pois que vejo teu fosso crescer a olhos vistos), nem a minha prova a sinceridade de meus eternos sentimentos. Alonguei-me por demais. Tenho zilhões (e não duvide dos números!) de músicas pra cantar-te aqui, mas tiro agora o seu direito a todas elas, ficando para mim a vida que seguirá. Se for um homem de sorte, algum dia esquecerei seu nome, ou ao menos seus carinhos cruéis.
Desejo que seja muito feliz, e que eu, pela primeira vez, seja mais ainda. Talvez daqui a alguns dias eu pensenovamente um futuro lindo de comunhão, e pare para esperar.
Não.
Adeus.
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